Portishead - Coliseu do Porto - 26.03.08
Ontem à noite, no Coliseu do Porto extinguiram-se todas as dúvidas quanto ao arranque da tournée em terras lusas. Poucas bandas, muito poucas, têm direito a uma recepção como a que a banda de Beth Gibbons teve. O aplauso apoteótico que deu as boas vindas à banda foi apenas uma amostra do que aconteceria ao longo do espectáculo.
A euforia era contagiante e chegou até ao ponto de ser irritante, tendo em conta que muitos, à mínima batida, ao mínimo acelerar de ritmo insistiam em acompanhar a banda com palmas, invariavelmente desconexas e fora de tempo. Felizmente, alguns "schiu"s depois e a situação resolvia-se.

"Silence", a faixa que abre "Third", o último registo da banda, foi também a música de abertura do concerto. O palco, repleto de instrumentos, assemelhava-se a um estúdio, bem organizado e estruturado, sem elementos decorativos, o que deu espaço a Beth Gibbons para ser a principal figura da banda. De voz irreprensível, segurando o micro com as duas mãos, adoptando por vezes uma postura quase de súplica ou devoção, a cantora foi o principal reflexo do efeito que o concerto terá tido para a banda.
Era evidente o sorriso, a satisfação face ao acolhimento que a banda teve, de tal modo que ainda antes da despedida Beth desceu do palco para cumprimentar os que estavam mais perto, percorrendo toda a primeira fila e abraçando alguns grupos.
As maiores explosões coincidiram como seria de esperar com as evocações de "Dummy" e "Portishead". Aí, aos primeiros acordes, o público respondia com aplausos avassaladores, levantando câmeras e telemóveis, criando até um cenário algo intimista, o que para uma sala lotada é um feito de registo. Se é certo que a perspectiva das galerias não será a melhor, também é certo que desse ponto se tornou nítida a atenção que a maioria dispensava às canções. Os hinos compostos ainda nos 90 foram acarinhados de início ao fim, com todo o Coliseu a ecoar excertos de "Glory Box", "Numb" ou "Only You".
Alguns dos novos sons de "Third" foram recebidos de forma algo reticente como os casos de "We Carry On" ou "Machine Gun", de sonoridade mais intrincada, num jogo experimental quase psicadélico, o que é compreensível tendo em conta que são essas músicas, juntamente com "Silence" e "The Rip" as que mais se afastam da sonoridade mais conhecida dos Portishead.
Vale a pena registar e sublinhar a data: 26 de Março de 2008. Marca o regresso de uma das bandas mais carismáticas, irreverentes e essenciais do panorama da música alternativa mundial. E assinala, pelo que simbolizou e pelo que se assistiu nessa noite, um dos concertos do ano.











