Festival Sudoeste 2008 - 1ª Parte

Quem já esteve num festival de Verão sabe que assistir a todos os concertos disponíveis é praticamente impossível. Quem já foi ao Sudoeste, para além de confirmar isso tem direito a ser abraçado por leves, constantes e intermináveis nuvens de pó. Ah, e poeira também...
Avancemos. E esqueçamos a viagem, ou as viagens, também elas prolongadas e frequentes. Chegados ao recinto, pouco antes de o palco principal arrancar, foi necessário ultrapassar o primeiro desafio: conseguir lugar para a tenda. Garantido o sucesso da tarefa, senti-me como o Tom Hanks, em "O Náufrago", após conseguir fogo. Primeira vitória.
Nesta fase, já os Clã tinham arrancado com o concerto. Chegamos perto do palco e já era perceptível que o concerto acontecia demasiado cedo. Ainda assim, os que estava a assistir, souberam saborear o momento e a festa que Manuela Azevedo e companhia souberam transportar para o ambiente festivaleiro. Concerto enérgico e abrangente, ao gosto dos apreciadores da banda e dos que conhecem apenas o que vai passando na rádio.
E assim, num estalar de dedos, e entre duas visitas à zona de alimentação, pouco depois das 22.30, eis que chega ao palco a razão para a alteração no alinhamento das bandas no primeiro dia de festival: Bjork. A cantora islandesa, com viagem marcada para a mesma noite, passou pelo festival para um concerto competente, praticamente suportado em "Volta", com a mesma irreverência e voz que habita cada um dos seus trabalhos. Espectáculo cénico q.b., sem excessos ou euforias, que contou com a presença de Toumani Diabaté, passou algumas (poucas) vezes pelos anteriores trabalhos, sendo que foram esses os momentos mais celebrados do concerto. Para além disso ficam também uns estrondosos "Declare Independence" e "Earth Intruders". Óptimo concerto que, apesar da recepção acalorada da plateia, merecia outro ambiente.
Bjork - Hyper Ballad
De seguida, e depois de um final quase apoteótico, chegou o rock/blues tuaregue dos Tinariwen, que não convenceu grande parte do público que ou se dirigiu para um dos muitos outros espaços disponíveis ou se deixou ficar frente ao palco mas a conversar ou a beber.
Ao longe, depois de vaguear pelo ainda relvado pisado verde amarelado do empoeirado recinto, ouviam-se os Balkan Beat Box, que entre outros sons menos interessantes insistia em reproduzir o som de um galo. Desconfio que quem não viu, não se vai arrepender.
A expectativa para o segundo dia estava entregue ao concerto dos Tindersticks. Pelo meio havia interesse em espreitar Rita Red Shoes e os Goldfrapp, sendo que muitos dos presentes queriam era a batida efervescente dos Chemical Brothers que, acrescento já, vi sentado e bem acomodado.
Como convém guardar algum tempo para fazer alguma refeição, quis a fome e o apetite que o concerto a dispensar fosse o de Yael Naim. Antes, Rita Red Shoes abria o palco principal. Percorrendo, como seria de esperar, "Golden Era", e desta vez com coro, Miss Red Shoes voltou a dar um concerto bastante eficaz, conseguindo a tarefa árdua de convencer muitos dos que deambulavam pelo recinto, para se aproximarem e acompanharem com palmas muitas das músicas retiradas do disco de estreia.
Rita Red Shoes - Hey Tom
Pouco depois de o Sol trocar de lugar com a Lua, o palco inundava-se de talento. Os Tindersticks, tripulados por Mr. Stuart Staples, subiam a uma nau de nome "The Hungry Saw" e transformavam o espaço em frente ao palco numa maré de veludo. A miudagem (que era muita!!), aguentava-se em esforço face a uma banda que nada lhes dizia. A banda não cantava sobre a mesada dos pais, nem sobre os tpc por fazer, e pior que isso não tinha batida, o que justificou que muitos, ainda assim insuficientes, fossem procurar um anúncio aos Morangos com Açúcar ou ao acne. Ao meu lado, uma espanhola comentava com a amiga que o cantor lhe provocava arrepios...
Ouviram-se músicas novas e sucessos antigos mas faltou tanto que o tremendo concerto (faltou apenas subir um pouco mais o volume) que passou pelo Festival se tornou insuficiente para satisfazer longos meses de espera. Mas já tinha a noite ganha....
Tindersticks - Turns we took
O resto da noite foi uma agradável conversa entre uns Goldfrapp a cumprir os mínimos, com bons momentos, mas sem deixar marca, e um concerto dos Chemical Brothers, a banda que conquistara mais público até esse momento. Batidas frenéticas, luzes e explosões de néon, "hey boy, hey girl" no volume máximo, mas uma fórmula que de tão repetida se tornou cansativa e sem novidade.
E assim, chegava o festival a meio... sem ter espreitado convenientemente qualquer um dos outros palcos.
(to be continued...)
Lindsay Mac... Mais Uma Proposta...
Esta senhora é natural de Boston - USA, e faz-nos ouvir um estilo de música que se encaixa no indie/folk/alternativo... Sempre complicado conotar os estilos, mas... Também concordo que é um som alternativo, com uma musicalidade espantosa... Mas...
Lindsay Mac oferece-nos uma nova forma de olhar para a música eletroacústica, combinando indie/folk/alternativo com a estrutura musical despida, apenas com voz e violoncelo.
A sua música é maravilhosamente diversificada e memorável, contendo raízes na música jazz, folk, americana, funk e rock, indie, não apresentando um gênero específico... Como disse, complicado definir um estilo musical...
Esta menina/senhora traz com ela um novo álbum para este ano de 2008, Small Revolution... Fica aqui um pequeno desvendar deste novo álbum...
Fica a proposta...
Boas audições musicais...
Peixe:Avião
A banda de Braga prepara-se para lançar o seu novo álbum “40.02” a 15 de Setembro, mas o apetite mantém-se constante desde aquela noite, ligeiramente saciado por inúmeras passagens pelos nossos tão queridos MySpace e YouTube.
A invasão da boa música portuguesa continua à medida que vão surgindo novas bandas, novos sons que fazem despertar nos ouvintes, novos sentimentos, novos patamares, novas maneiras de apreciar música.
O grande Doutor da música bracarense Adolfo Luxúria Canibal não poupa elogios à banda e inclusivamente descreve num “Press Release” tudo de novo que a banda atrai e fornece ao panorama da música nacional. A afirmação é clara e expressiva, o que mais espanta “…é a portugalidade que irradia, como se de repente tudo o que nos habituamos a associar à alma portuguesa, a melancolia dos seus poetas, o singelo das pequenas coisas, se cristalizasse em sons e palavras. Esqueçam o fado como Amália o popularizou e é macaqueado de Portugal ao Japão: o novo fado do século XXI é peixe:avião!”
Entre as faixas disponíveis destacam-se “A espera é uma arame” que começa a emergir nas nossas rádios tal e qual peixe que ganha asas e se transforma em avião…
Pessoalmente gostaria de destacar “Mar Capelo”, e afirmar desde já que o pequeno auditório do Theatro Circo vai ser insuficiente para abraçar a banda conforme merece.
Escapa-me também um lamento e uma certeza. A pouca sorte de não poder comparecer no dia 23 de Agosto em Guimarães, crescente pelo facto de estarem acompanhados pelos “Mundo Cão”, e a certeza que estarei nas primeiras filas no dia 13 de Setembro no Theatro Circo.
Por último, gostaria de agradecer aos meus grandes amigos e criadores do blog, a oportunidade para estas participações esporádicas.
Muito obrigado.
Edbraga
KLIMT1918
Klimt 1918 - Just In Case We'll Never Meet Again - The Graduate - 2008
Labels: Lado Negro
Esta Noite Acompanhado Por...
Isto é património mundial... :-)
Fica um "cheirinho" das músicas e letras fantásticas que nos chegam do outro lado do atlântico... Pela voz de Tom Jobim... e João Gilberto...
Fantástico! Relembrar antiguidades... Imortais e intemporais...
Boas audições musicais...
Um álbum para recordar...
Mas...
No meio desta "preguiça de início de férias e fim de trabalho", lá fui vasculhar o meu armário de cd's... Talvez à procura daquele álbum, daquele!
Lá no fundo!
Que ouvimos sempre que todos os outros nos parecem enfadonhos, cansativos, repetitivos...
O que saiu? Bem, saiu da prateleira uma preciosidade, que para mim é um dos melhores álbuns que tenho no meu baú...
Intenso, com personalidade, arrepiante em certa alturas, profundo... Cuidadosamente estruturado, com altos e baixos a nível instrumental...
Sempre que o oiço, fico incrivelmente espantado como é que com apenas duas personagens é possível montar um espectáculo estrondoso!! Mas não são duas vulgares...
Estamos a falar de Dave Matthews e Tim Reynolds...!

Com esta imagem e estes sentimentos, deixo-vos esta relíquia de 1999, desejando boas férias a todos e boas audições musicais...
Abraço!
Festivais
Chegados a 2008 só 2 sobrevivem enquanto a Sul, para inglês ver, temos Allgarve, Sudoeste, Super Bock Surf Fest, Alive, Super Bock Super Rock (a meias com o Porto), Delta Tejo...
Não bastasse a enchente de concertos a que o povo da capital tem direito agora também o Verão musical é desenhado a Sul.
Depois de perder Coura 2008, estão as baterias apontadas à Zambujeira do Mar, onde se garantiu o cartaz mais chamativo mas também mais caótico.
Ter os Tindersticks antes dos Chemical Brothers ou Goldfrapp é um erro tão grande como decidir colocar Vanessa da Mata como cabeça de cartaz na noite sábado. E os Xutos... Que fazem os Xutos entre tanta banda?
Ainda assim, a mesma personagem que há uns dias atrás falava em coerência vai até ao festival da Zambujeira. Muito mais porque é a forma mais simples, e acreditem que simples é dizer muito pouco do que vai acontecer, de estar com alguns amigos durante as curtíssimas férias.
Na semana seguinte o destaque vai para este cartaz:

Viana não é só o Anti-Pop...
Objectivo para férias: estar com os amigos. Soa fácil mas a vida não tem deixado...
LCD Soundsystem - All My Friends
Sigur rós - með suð í eyrum við spilum endalaust

"með suð í eyrum við spilum endalaust", o 6º álbum de originais, os Sigur rós regressam em grande. O teor mais descontraído e menos preparado do novo registo em nada diminui os novos sons da banda islandesa.
Quem afirmar que a versão 08 da banda representa uma viragem no seu som ou não ouviu todo o álbum ou então não conhece o que aconteceu antes de "með suð...". Para além de editarem o álbum menos pronunciável da carreira da banda, garantem com o novo registo um som mais abrangente, mais assimilável mesmo para quem não apreciou os primeiros trabalhos. E talvez seja aí que reside a principal diferença: a componente mais "relaxada" exprime-se unicamente no sentido menos complexo que compõe "með suð...".
Se quando ouvi "Gobbledigook", o single de avanço, cheguei a acreditar que o som seria eminentemente alegre e radiante, agora não restam dúvidas que este é o álbum mais esquizofrénico do ano. E talvez por isso tenha lugar certo nos melhores que ouvi em 2008.
O arranque é fulgurante, com ritmos enérgicos e acelerados, numa combinação quase que tribal, sempre frenética. Passados 7 minutos após o Play, arranca "Gódan daginn", mais compassada, intimista e distante. Ainda a alma sossega e se recolhe e eis que arranca "Vid spilum endalaust", a música com mais luz, energia e sorrisos de todo o álbum. À faixa 5 surge o melhor exemplo, o melhor retrato de "með suð...". Doce, de tom próximo e recolhido, emerge a caminho dos 5 minutos numa tempestade de ribombares e tormentas de guitarra, num caos de esperança enfurecida, em apoteose, seguramente indescritível quando tocada ao vivo.
Ficasse o álbum por aqui e tínhamos som suficiente para discutir durante horas. Porque o som etéreo dos Sigur Rós assim o permite. A letra imaginada ou quando verdadeira, longe do inglês corrente, lança pontes à imaginação e retalha o quotidiano com melodias irresistíveis.


